A Criatividade e o Empreendedorismo no contexto social

“Nenhum homem é uma ilha.” – John Donne

Nos dois últimos artigos discorri sobre “O Processo Criativo individual e coletivo” e sobre “A Criatividade e a sua relação com a Inovação”, e agora, o foco é a criatividade como um fenômeno social, e nesse contexto destaco a economia criativa e o empreendedorismo social.

Economia Criativa

Recentemente ao preparar uma palestra sobre “Criatividade e Inovação nos Negócios” para um curso do Gil Giardelli sobre Economia Criativa na ESPM de São Paulo, tive que estudar um pouco mais sobre os aspectos da criatividade no contexto cultural, econômico e social.

A economia criativa segundo o autor inglês John Howkins no livro “The Creative Economy”, publicado em 2001, consiste de atividades na quais indivíduos exercitam a sua imaginação explorando o valor econômico. Os seus processos que envolvem, como principais recursos produtivos: criação, produção e distribuição de produtos e serviços, usando o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual.

A Economia Criativa se utiliza das indústrias criativas, que a classificação da organização Unctad divide em quatro categorias amplas, a saber: patrimônio cultural, artes, mídia e criações funcionais. Essas categorias estão subdivididas em oito áreas, conforme mostra o quadro abaixo:

Conforme um texto que li recentemente de Giorgio Bertini , no seu mais básico, a criatividade social obriga-nos a encontrar espaços melhores em nossas escolas, universidades, organizações comunitárias e locais de trabalho, para falar, ouvir, partilhar e criar, onde a língua de aprendizagem nos permite entrega e humildade, onde todos podem encontrar sua voz e todas as vozes possam ser ouvidas; onde o potencial criativo dos seres humanos pode ser realizado em conjunto.  Giorgio nos afirma que uma economia genuinamente criativa, requer o avanço em conjunto (professores, acadêmicos, profissionais, políticos, etc.) em uma viagem de reafirmação da criatividade.

Empreendedorismo Social

“Na Idade Média, o termo empreendedor era usado para descrever qualquer clérigo que estivesse à frente de grandes obras de arquitetura como uma catedral ou um castelo. As funções de inventor, planejador, arquiteto, gerente, empregador e supervisor eram todas absorvidas por uma só pessoa. Mais tarde somente no século XVIII o termo foi usado na atividade econômica. O trio de qualidade – visão, inventividade e implementação – parece indispensavelmente ligado à ideia de empreendedorismo: não apenas visão, não apenas inventividade, não apenas implementação, mas as três qualidades juntas.” – R. Paul Stevens

Segundo a Wikipédia, o empreendedorismo social se refere aos trabalhos realizados pelo empreendedor social, pessoa que reconhece problemas sociais e tenta utilizar ferramentas empreendedoras para resolvê-los. Difere do empreendedorismo tradicional, pois tenta maximizar retornos sociais ao invés de maximizar o lucro.

De maneira mais ampla, o termo pode se referir a qualquer iniciativa empreendedora feita com o intuito de avançar causas sociais e ambientais. Essa iniciativa pode ser com ou sem fins lucrativos, englobando tanto a criação de um centro de saúde com fins lucrativos em uma aldeia onde não exista nenhuma assistência à saúde, como a distribuição de remédios gratuitos para a população pobre.

O empreendedor social visa a maximização do capital social (relações de confiança e respeito) existente para realizar mais iniciativas, programas e ações que permitam para uma comunidade, cidade ou região se desenvolverem de maneira sustentável. Ele faz esses avanços disseminando tecnologias produtivas, aumentando a articulação de grupos produtivos e estimulando a participação da população na esfera política, ampliando o “espaço público” dos cidadãos em situação de exclusão e risco. Para tanto utiliza técnicas de gestão, inovações produtivas, técnicas de manejo sustentável de recursos naturais e criatividade para fornecer produtos e serviços que possibilitem a melhoria da condição de vida das pessoas envolvidas e beneficiadas, através da ação dos empreendedores sociais externos e internos a comunidade.

Uma ferramenta para o Empreendedorismo Social

Quando escrevi meu artigo sobre Design Thinking, tive a oportunidade de conhecer um excelente material da IDEO chamado HCD – Human-Centered Design (em português, Design Centrado no Ser Humano) um processo usado há muito tempo que facilita a criação de soluções que atendam as necessidades sociais, ou seja, ensina como fazer.

O kit HCD da IDEO é voltado para organizações da que trabalham com comunidades carentes que ajudam a melhorar a vida de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia. O kit não oferece soluções, mas fornece técnicas, métodos, dicas e planilhas que ajudam no processo que dá voz a comunidades e permite que os desejos destas orientem a criação e implementação de soluções.

O processo HCD consiste de: 1 – “Ouvir” de um jeito novo as necessidades dos usuários;  2 – “Criar” idéias inovadoras para atender a essas necessidades; e 3 – “Implementar” soluções levando em conta a sustentabilidade financeira das mesmas. Ele ajuda a organização a se relacionar melhor com as pessoas às quais serve, transformar dados em idéias possíveis de executar, além de facilitar a identificação de novas oportunidades e aumentar a velocidade e eficácia na criação de novas soluções.

Durante a fase “Ouvir (Hear)”, a equipe coletará histórias e se inspirará nas pessoas. Isso é organizado e conduzido através pesquisas de campo.

Na fase “Criar (Create)”, o trabalho é feito em equipe no formato de seminários para traduzir em estruturas, oportunidades, soluções e protótipos o que ouviu dos usuários. Durante essa fase você passará do pensamento concreto ao abstrato de forma a identificar temas e oportunidades para, mais tarde, voltar ao concreto com a criação de soluções e protótipos. Tais soluções precisam ser desejáveis, praticáveis e viáveis.

A fase “Implementar  (Deliver)” marca o início da implementação de soluções através de um sistema rápido de modelagem de custos e receitas, estimativas de capacitação e planejamento de implementação. Essa fase ajuda a lançar novas soluções.

Fonte: IDEO HCD

Para detalhes deste processo, solicite o Kit HCD no site da IDEO.

Conclusão

Tem muito a ser feito com criatividade, vontade e atitude das pessoas no contexto social, seja na educação, na economia criativa ou nos empreendimentos sociais. E para isso cada um de nós pode ajudar de alguma forma. Pense como você pode contribuir, seja criativo, use seus talentos, compartilhe idéias, apoie projetos, cobre quem você ajudou a eleger, lute por justiça, enfim, faça diferença.

Se gostou, por favor, compartilhe.

Abraço, @neigrando

Links relacionados:

Um pensamento sobre “A Criatividade e o Empreendedorismo no contexto social

  1. Sobre empreendedorismo, negócios e sociedade, gostei destes textos de Peter Drucker:
    “Se queremos saber sobre um negócio, temos que começar com um propósito. E o seu propósito deve estar fora do negócio em si. Na verdade, ele deve estar na sociedade, pois uma empresa é um órgão da sociedade ….. lucro não é a explicação, causa ou razão de comportamento de negócios e decisões de negócios, mas o teste de sua validade.“

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